A saída do feto do útero materno para o ambiente exterior é talvez o momento que mais preocupa as gestantes, pois traz muitas dúvidas, angústias e o medo por ser um período, muitas vezes desconhecido ou já experienciado das mais diversas maneiras. Para entender melhor sobre esse assunto, vamos acompanhar a conversa entre a senhora Maria Silva e a enfermeira Ana da UBS Flores do Campo. Maria tem 25 anos, acabou de descobrir a primeira gestação e suas dúvidas são relacionadas ao parto.

 

Maria: Bom dia Ana. Tenho várias perguntas quanto ao parto. Eu sei que existem dois tipos, estou certa?

Enf. Ana: Bom dia Maria, na verdade existem dois tipos principais de parto. São eles o normal e cesárea. Os outros tipos são variações do parto normal.

*Parto normal: Ocorre por via vaginal e, dependendo da situação, são necessários medicamentos e intervenções, como por exemplo a ocitocina para acelerar o trabalho de parto ou a episiotomia para ajudar na saída do bebê.

*Parto cesárea: é considerado um parto operatório, pois é realizada uma cirurgia. Opta-se por ele quando não há meios para que o nascimento ocorra por parto normal. Na cesariana é administrado uma anestesia para que o obstetra possa cortar do abdômen até o útero por onde é retirada a criança.

 

Maria: Então quais são essas variações que você citou?

Enf. Ana: São os partos de cócoras, na água, fórceps e Leboyer. No primeiro a mulher permanece agachada e a gravidade colabora na saída do bebê acelerando a dilatação. Na água o parto é realizado dentro de uma banheira e a água morna alivia a tensão e a dor, estimula a irrigação sanguínea e favorece o relaxamento muscular. O terceiro é o tipo de parto vaginal em que se utiliza um instrumento denominado fórceps para auxiliar a retirada do bebê que, por algum motivo, está impedido de sair e para que ele não permaneça muito tempo no canal da vagina, o que pode dificultar a passagem de oxigênio para o feto. O parto Leboyer não é um parto propriamente dito, mas sim, um método de cuidados com a mãe e o filho prezando por um momento o menos traumático possível com o uso de pouca luz, silêncio, principalmente depois do nascimento, massagem nas costas do bebê, amamentação precoce e banho perto da mãe (pode ser dado pelo pai).

 

Maria: Mas parto natural e normal não são a mesma coisa?

Enf. Ana: O parto natural é o parto normal sem o auxílio de nenhum método de intervenção. Ou seja, não se usa anestesia, episiotomia, indução, dentre outros. Podem até ocorrer algumas manobras para que a mulher não sinta dor, como massagens, mas sem o uso de medicamentos. Neste caso, o parto pode ocorrer tanto em casa quanto no hospital e o profissional (parteira, enfermeiro obstetra ou médico) funciona como suporte e acompanhante do processo. A mulher é a responsável pelo sucesso do parto.

 

Maria: Eu já ouvi falar sobre parto Humanizado. O que significa isso?

Enf. Ana: Não se trata especificamente de um tipo de parto. Mas sim de como devem ser realizados os cuidados à mãe e ao bebê. Os cuidados principais referem-se a: passar por pelo menos seis consultas de pré-natal, ter vaga garantida em hospital e acompanhante na hora do parto; respeito à escolha da mãe sobre a posição em que quer ficar durante do trabalho do parto e o contato precoce entre mãe e filho e amamentação na primeira hora de vida.

 

Maria: Porque a mulher deve sempre dar preferência ao parto normal?

Enf. Ana: Na verdade Maria, quando a mulher pode optar pelo tipo de parto, o normal é mais vantajoso, pois não trata-se de um procedimento cirúrgico, portanto há menor risco de hemorragias e infecções. A recuperação após o parto é melhor e mais rápida. Favorece a produção de leite, pois nele há maior eliminação de hormônios importantes e a relação entre mãe e filho ocorre mais cedo.

 

Maria: Para o bebê há vantagens quanto ao parto normal?

Enf. Ana: No parto vaginal, ao passar pelo canal do parto, o bebê sofre uma compressão que auxilia na expulsão de líquidos dentro do pulmão, assim a respiração é facilitada e diminui os riscos de infecção.

 

Maria: Então o parto normal não gera complicações?

Enf. Ana: Podem ocorrer sim sendo as mais comuns hemorragias, infecções e problemas no progresso do trabalho de parto.

 

Maria: Quais são as contraindicações quanto ao parto normal?

Enf. Ana: Alguns fatores demandam a necessidade de realizar-se parto cesárea, principalmente quando relacionado a desproporção entre o tamanho da cabeça do bebê e o da bacia da mãe, ou seja, o bebê grande e a bacia estreita. Se a mulher sofre de doenças cardíacas graves ou se há sofrimento fetal e materno; doenças capazes de levar à baixa oxigenação do bebê durante o parto (como hipertensão arterial materna e pré-eclâmpsia grave).

 

Maria: Mas eu posso escolher qual tipo de parto quero realizar?

Enf. Ana: Você, juntamente do profissional que acompanha sua gravidez, devem priorizar dois aspectos: o que quero e o que é seguro. Durante o acompanhamento de pré-natal a evolução da gestação e as mudanças no curso é que definirão.

 

Maria: Se a minha gestação for considerada de Alto Risco, qual seria o melhor tipo de parto?

Enf. Ana: Com relação a essa pergunta o que você precisa entender é que o acompanhamento de toda a gestação vai definir a qual parto você será submetida. Porém, intercorrências podem ocorrer durante esse período. Portanto, não há como definir, a evolução da sua gestação é que direcionará.

 

Maria: E se forem gêmeos?

Enf. Ana: A escolha do tipo de parto nessa situação depende das constatações médicas durante o pré-natal e, principalmente, da posição dos fetos no final da gestação. Se ambos estiverem encaixados em direção ao canal do parto geralmente evolui-se o parto vaginal, mas se um estiver em sentido transversal, geralmente opta-se pela cesárea. Mais de dois fetos é priorizado o parto cesárea devido a probabilidade de mudança de posição no período do parto.

 

Maria: O que é e porque acontecem os partos prematuros?

Enf. Ana: São aqueles partos ocorridos antes de 37 semanas de gestação. Os motivos são diversos como infecções maternas, aumento extremo da pressão arterial da mãe, descolamento prematuro de placenta, dentre outros.

 

Maria: Então qual é o período normal de nascimento de um bebê?

Enf. Ana: A gestação sem intercorrências pode evoluir em parto seguro até completar-se 42 semanas, porém a realidade do Brasil hoje designa com que aguarde-se até 40 semanas. Essa definição dependerá do obstetra que acompanha a mulher.

 

Maria: E quando saberei que estou em trabalho de parto?

Enf. Ana: Os sinais que indicam o trabalho de parto são:

  • Perda do tampão mucoso que é uma secreção esbranquiçada (parecida com catarro) que muitas vezes possui umas rajas de sangue.
  • Perda de líquido amniótico: Ele é claro e tem um cheiro que lembra o de água sanitária. Se estiver escuro, pode sinalizar a presença de mecônio, as fezes do bebê, então procure a Maternidade imediatamente.
  • Contrações: endurecimento de todo o abdômen, acompanhado ou não de dor. Quando iniciar você deverá contar de quanto em quanto tempo elas correm e por quanto tempo permanece endurecida. A partir do momento que as contrações forem regulares, ou seja, ocorrerem com o intervalo de 10 minutos entre elas, é hora de ir ao hospital.
  • Dores (quando acontecem): iniciam na região lombar e irradiam para o abdômen.
  • Dilatação é um sinal que você não conseguirá monitorar, somente o profissional habilitado (médico ou enfermeiro).

 

Maria: Posso comer ou ingerir líquidos durante o trabalho de parto?

Enf. Ana: Não há contraindicação, mas é importante saber que as contrações podem desencadear náuseas e a presença de alimentos no estômago pode gerar vômitos e, em caso de problemas que necessitem a realização cesárea haverá a necessidade de uso de anestesias.

 

Maria: Quanto tempo pode durar um trabalho de parto?

Enf. Ana: Nas gestantes que estão passando pelo primeiro parto, pode durar até 12 horas (lembrando-se que não é um período fixo). E nas gestações posteriores esse período diminui. Porém, um tempo exacerbado requer a avaliação médica para definir se postergar ainda mais é seguro para mãe e bebê.

 

Maria: Qual a relação entre o Exame do Cotonete e o Parto? Não entendi porque eu tenho que fazê-lo antes de ter o bebê.

Enf. Ana: Toda mulher tem em sua flora intestinal uma bactéria que se chamada Estreptococos do tipo B. O exame detecta a presença desse micro-organismo na vagina e próximo ao ânus que, durante o parto, pode contaminar o bebê. Em caso de resultado positivo, a gestante receberá tratamento com antibiótico no hospital, antes do parto para prevenir a contaminação do bebê.

 

Maria: Eu tenho que depilar os pelos da minha região genital antes de ir para a maternidade?

Enf. Ana: Atualmente a maioria dos profissionais da área obstétrica defende que os pelos pubianos garantem maior proteção e a retirada deles pode facilitar infecções e até dificultar cicatrização.

 

Maria: Por que é realizado aquele corte na vagina durante o parto? Dói quando ele é feito?

Enf. Ana: Esse corte é chamado de episiotomia e é realizado para facilitar a saída do bebê pelo canal do parto e para evitar que a saída do bebê cause um corte natural (laceração). É uma lesão controlada, que não causará danos em nervos e que será capaz de abreviar o parto em algumas circunstâncias. é realizado sob efeito de anestesia local.

 

Maria: Como devo me preparar para o trabalho de parto?

Enf. Ana: Realizando atividades físicas moderadas durante a gestação (sempre orientada pelo profissional que acompanha seu pré-natal), pois auxiliam no controle da respiração e no preparo dos músculos que participarão do parto.

 

Maria: Com relação ao parto cesárea quanto dura a cirurgia?

Enf. Ana: Isso varia de médico para médico e de caso a caso. Numa cesárea sem intercorrências, a duração costuma ficar entre 40 minutos e uma hora.

 

Maria: Depois de passar por um parto cesárea o próximo filho pode nascer por parto normal?

Enf. Ana: Isso dependerá das condições da mãe e do bebê. Não é obrigatório passar por outra cirurgia, mas o médico avaliará cuidadosamente os riscos de haver uma ruptura uterina, pois esse é o risco mais preocupante neste caso.

Fontes:

Brasil. Ministério da Saúde. Gravidez, parto e nascimento com saúde, qualidade de vida e bem-estar. Rede Cegonha, Brasilia (DF), 2013.

Velho MB, dos Santos EKA, Brüggemann OM, Camargo BV. Vivência do parto normal ou cesárea: revisão integrativa sobre a percepção de mulheres. Texto Contexto Enferm. 2012;21(2): 458-66.

Brasil. Ministério da Saúde. Gestação de Alto Risco – Manual Técnico. 5ª edição. Brasília (DF), 2012.

Brasil. Ministério da Saúde. Cadernos de Atenção Básica. Atenção ao pré-natal de baixo risco. Brasília (DF), 2012.

Imagem: Envato Elements